Sei que não importa o quanto isto está distante, mas gosto de me ver longe às vezes, mesmo que por dentro apenas, estando por fora entre embaixo da luz clara artificial ou do lado da mesa, onde ela faz uma sombra, onde posso fechar melhor os olhos, e de onde os barulhos e ruídos parecem desviar.
Eu odeio gente que geme. E ela ainda fica ali, sussurrando besteiras, cuspindo mazelas e baixarias estranhas aos ouvidos até mesmo da própria, sem aparente sentido, sem conexão com este ambiente no qual estamos, quietos e fortes sob estas paredes todas brancas e bem pintadas, polidas até de um branco constrangedor, amedrontador, ameaçador.
As coisas já são estranhas o suficiente para que eu agüente mais porcaria, ainda mais podendo interferir nisso. Sei do que estou falando, porque muitas vezes me sinto assim enquanto trabalho, então não questiono porque seria bem pior.
Enfim, aos poucos ela vai se calando, mas os soluços ainda insistem em permanecer no ar, como se as paredes agora é quem lamentassem seus rostos virados para dentro, não para fora, presenciando todo dia o dia inteiro as andanças dos papéis e mais papéis, blocos manchados de tinta preta borrada e espalhada, normalmente sem sentido nem motivo.
As baias e suas respectivas cobaias espremidas entortam os dizeres da bandeira obedecida, da forma artificial da beleza inventada, tornando o ambiente estranhamente natural, ao mesmo tempo em que a desorganização por cima das tentativas de quadricular o local harmonizam-se com os nacos de madeira pintada. Tudo respira bem, tudo sinaliza que esta costela da espinha tem andado bem, desempenhando seu papel de forma harmônica para os tais e tantos castelos de paredes brancas bem pintadas que, sem parar nem pensar, constroem.
Ah! Quase recomeça a choradeira, mas um tapa foi o suficiente. Crivado de balas, não teve como continuar, parou e descansou enfim. Volto.
Agora está interessante, estou bem aqui dentro. A luz é branca e contínua, preenche bem os escuros da sala e de alguns cantos, dando uma impressão um pouco diferente e interessante ao local. O teto está alto, deve ter mais de três metros, e o chão também me agrada.
Desta sala não dá pra ver a rua, nem ouvi-la direito, porque a única janela termina no pequenino quintal coberto que é usado como cozinha e despensa, além de ser este o décimo andar. Estou bastante isolado aqui de lá de fora, da rua, da poluição sonora e ambiental que cerca as construções deste tempo, das pessoas agora quase todas perigosas, da vida.
Antes poucas, agora já mais espinhas insistem teimosamente em mostrar as sujeiras todas dos outros castelos, dos outros ratos presos, dos não tão presos assim, e finalmente os dos soltos, ou supostamente tidos como tais. Isto me anima a continuar, pelo menos por hoje, aqui dentro, agüentando esse infernal lamento, essas construções orientais tão cheias de supostos regionalismos, na verdade tão cheias mesmo de rabiscos valorizados por cobaias de outros castelos.
Dois pequenos quadros baratos e um diploma estão pendurados, dando um toque pessoal ao local, apesar do pessoal do local não ter toque nenhum. Todos os móveis são claros, de branco ou cinza e metálicos, e a espinha da qual faço uso também fica muito integrada ao ambiente.
Mesmo assim, aposto que no dia em que descobrirem o poder destas, tirarão logo as possibilidades de revolução, apararão as arestas como um carpinteiro faz com a madeira que sobra em uma bengala bem feita ao seu senhor.
Estranha a sensação aqui dentro, é algo que me sufoca mas me protege, as paredes grossas que delimitam esta sala me escondem e me celebram, estou em um pulmão de pensamentos. E é um pulmão ainda novo.
Mas chega, ela parou de gemer e pronto, isso agora me basta para continuar os experimentos comigo mesmo. As pilhas do maldito rádio secaram, e o silêncio volta a reinar, junto com estas paredes brancas de dar dó encostar a mão suja.