terça-feira, 29 de novembro de 2011

Em um cubículo


Sei que não importa o quanto isto está distante, mas gosto de me ver longe às vezes, mesmo que por dentro apenas, estando por fora entre embaixo da luz clara artificial ou do lado da mesa, onde ela faz uma sombra, onde posso fechar melhor os olhos, e de onde os barulhos e ruídos parecem desviar.

Eu odeio gente que geme. E ela ainda fica ali, sussurrando besteiras, cuspindo mazelas e baixarias estranhas aos ouvidos até mesmo da própria, sem aparente sentido, sem conexão com este ambiente no qual estamos, quietos e fortes sob estas paredes todas brancas e bem pintadas, polidas até de um branco constrangedor, amedrontador, ameaçador.

As coisas já são estranhas o suficiente para que eu agüente mais porcaria, ainda mais podendo interferir nisso. Sei do que estou falando, porque muitas vezes me sinto assim enquanto trabalho, então não questiono porque seria bem pior.

Enfim, aos poucos ela vai se calando, mas os soluços ainda insistem em permanecer no ar, como se as paredes agora é quem lamentassem seus rostos virados para dentro, não para fora, presenciando todo dia o dia inteiro as andanças dos papéis e mais papéis, blocos manchados de tinta preta borrada e espalhada, normalmente sem sentido nem motivo.

As baias e suas respectivas cobaias espremidas entortam os dizeres da bandeira obedecida, da forma artificial da beleza inventada, tornando o ambiente estranhamente natural, ao mesmo tempo em que a desorganização por cima das tentativas de quadricular o local harmonizam-se com os nacos de madeira pintada. Tudo respira bem, tudo sinaliza que esta costela da espinha tem andado bem, desempenhando seu papel de forma harmônica para os tais e tantos castelos de paredes brancas bem pintadas que, sem parar nem pensar, constroem.

Ah! Quase recomeça a choradeira, mas um tapa foi o suficiente. Crivado de balas, não teve como continuar, parou e descansou enfim. Volto.

Agora está interessante, estou bem aqui dentro. A luz é branca e contínua, preenche bem os escuros da sala e de alguns cantos, dando uma impressão um pouco diferente e interessante ao local. O teto está alto, deve ter mais de três metros, e o chão também me agrada.

Desta sala não dá pra ver a rua, nem ouvi-la direito, porque a única janela termina no pequenino quintal coberto que é usado como cozinha e despensa, além de ser este o décimo andar. Estou bastante isolado aqui de lá de fora, da rua, da poluição sonora e ambiental que cerca as construções deste tempo, das pessoas agora quase todas perigosas, da vida.

Antes poucas, agora já mais espinhas insistem teimosamente em mostrar as sujeiras todas dos outros castelos, dos outros ratos presos, dos não tão presos assim, e finalmente os dos soltos, ou supostamente tidos como tais. Isto me anima a continuar, pelo menos por hoje, aqui dentro, agüentando esse infernal lamento, essas construções orientais tão cheias de supostos regionalismos, na verdade tão cheias mesmo de rabiscos valorizados por cobaias de outros castelos.

Dois pequenos quadros baratos e um diploma estão pendurados, dando um toque pessoal ao local, apesar do pessoal do local não ter toque nenhum. Todos os móveis são claros, de branco ou cinza e metálicos, e a espinha da qual faço uso também fica muito integrada ao ambiente.

Mesmo assim, aposto que no dia em que descobrirem o poder destas, tirarão logo as possibilidades de revolução, apararão as arestas como um carpinteiro faz com a madeira que sobra em uma bengala bem feita ao seu senhor.

Estranha a sensação aqui dentro, é algo que me sufoca mas me protege, as paredes grossas que delimitam esta sala me escondem e me celebram, estou em um pulmão de pensamentos. E é um pulmão ainda novo.

Mas chega, ela parou de gemer e pronto, isso agora me basta para continuar os experimentos comigo mesmo. As pilhas do maldito rádio secaram, e o silêncio volta a reinar, junto com estas paredes brancas de dar dó encostar a mão suja.

sábado, 26 de novembro de 2011

Fuga


Estranhas torturas para um que aqui se encontra, quase pronto ao pó dessa época suja, junto ao de outras anteriores, de fábricas, fumaça, cheiro reluzente, a ânsia dos trinta, e pouco, de antes pouco, o que há por cobrir?, ela culpando-me por burradas, agora dentro tenta chinelar-me, quieta, minguado, contido, tremem como, por certo, de raiva, angústia, feliz por mim fico aqui, sem culpa fujo, a caverna do armário me ajuda então, pesada demais, "filho da puta, te pego, droga", astutamente aprendemos uns com os outros, algumas vantagens acumulam-se durante o tempo, junto com os calçados, rio quieto e contidamente, não foi dessa.

Por quanto tempo ainda não há, ela ainda espera algo de mim, atitude honesta, hierárquica, catastrófica para uma simples como eu, "nojentas, não deveriam existir", depois quem diria "(mais vingança justa faremos: ele ficará só para elas, não há como negar, seriam as mais fortes, já imaginou?!)", por que tanta casta, é nisso que dá querer tutano e mais tutano, incharam sem qualidade, agora ficam aí querendo me mostrar razão por algo que nem deveriam ter feito, belo vírus, grande, desengonçado, vendo graça em algo que inventaram - perfeição -, não há aplicação que a alcance, palavra mais besta essa, inventada como algo tão distante quanto impossível para essas leis físicas, de vez em quando ainda vem um dizendo o contrário, mas já é certo que não dá, não podem querer mais do que inchaços, razão em uma peste, futuro em uma fuga desesperada do medo.

Mais? Pois é para crer, ela não parece desistir, fico aqui no escuro quente e quieto, quase calçado no cacifo do móvel, culpando um vírus por ser ganancioso, hilariante até, aonde nos levou, daqueles enormes inchados sem o que importa inchado, e - pasmo escuto-me - "quase ninguém parece querer perceber!", a sulcos sem uso, sem ter tido, sem sentido!.

Um cabo agora atormenta-me e ao ar, nesse vaivém quase faz-me cair na vassoura, aí seria um grito só e a terra novamente, (lá vamos nós, vê-los agora após, tantas tentativas em vão!), mas não, ela não percebe o parco lugar no qual me encontro, parcíssimo para ela, relativo até, questiono isso, aqui cabe mais do que o que quer caber a prepotência em inventar certos sentidos, e para isso palavras correspondentes - novamente a ânsia de por resquícios entender a pequenez de tal existência -, e felizmente continuo.

Critico, mas as uso, (um instante!), então por que o faço não sei, "um momento;", aqui começo a compreender algo, veio-me mas fugiu, escondeu-se no pó da minha mal treinada massa, ei!, "estou agindo como tais!", não, não, não.

Passou, de certo é o pó, a tontura da fuga, uma fuga desesperada da vassoura, não do medo, eis a diferença!, tanto faz no final das pendengas, (somos, não sou).

"Droga, quem é?, ainda te pego", "pega nada, sua tonta!", a poeira levantada assenta novamente no assoalho de madeira, aqui sujo por determinação estética, aos poucos e desordenadamente, como deve de fato ser, "já vai!", ela está nervosa, a mão trocando a vassoura pela maçaneta distorce a atenção ao fato novo, "boa tarde, senhora", "boa tarde, o que deseja?", "deixe-me apresentar, sou o policial, vim por um pedido...", "mas... não fiz nada!", "não, não é questão de fazer, é justamente questão de não fazer, vim aqui para dizer-lhe que o seu senhor veio a nós", "velho!", "calma, a senhora sabe do que se trata?", "...sim... suponho...", "do aluguel atrasado", "...sabia...", "ele pediu para que voltasse a ele com duas possibilidades, a chave ou o tanto que a senhora lhe deve, mas não se preocupe tanto, não quero ser tachado de inescrupuloso, dou-lhe por conta da lei cinco dias, mas não mais", recompondo-se, ela tenta agradar aos enfim - por força ou desejo - escrúpulos, "obrigado, senhor", "de nada, bast a apenas que a senhora assine o termo de ciência", "...mas... sou obrigada?", "sim, se não assinar precisarei então levá-la usando forças", "está bem, melhor do que nada".

Postos os termos, e tendo documentado a ciência dela, sai o senhor ao largo corredor, escada abaixo, enquanto a porta é fechada com força pela semi-expulsa mulher, o mesmo contido, agora porém menos minguado, "outro filho da puta".

Nessa já vou, (nem tomou conta!), agora somos duas, fugindo, de vassouras ou com canetas, ainda dizem que mudaram!, nem pouco corro já penso em voltar, (ela deveria ouvir-me), não, não vai, irracional demais, "é por isso que sobraremos!", meu sangue já circula agora mais voraz, (é mesmo), ainda gozam disso, põem sentidos em coisas que de cor - por tantas tentativas em entender tais aspectos - chamam, de cor sabem, de cor riem, por cor hierarquizam.

Saio, enfim para ela, e andando vejo que o que mais nos diferencia não são nada além de algumas pernas ou patas a mais.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Português


Andando hoje por Lisboa, encontrei um senhor na rua que parecia, e muito, meu avô paterno, já falecido. Ele andava com certa dificuldade pela rua, com uma bengala, e estava bem vestido, bem barbeado; tinha uma cara aparentemente fechada como meu avô, e olhava para a frente como se não houvesse lado. Fiquei até emocionado, comovido com a figura, que de simples não tinha nada, mas cuja altivez me lembrava mesmo este avozinho já distante.

Quase imediatamente, pensei onde poderia estar meu avô, neste momento da vida, se vivo e se em Portugal ainda. Ele migrou para o Brasil em 1947, aos 23 anos de idade, de sua aldeia em Trás-os-Montes para São Paulo, onde viveu até morrer, em 2001. E se, por qualquer motivo da vida, ao invés de migrar para o Brasil, ele tivesse ficado em Portugal mesmo, onde estou agora, apenas a passeio?, e se ele e minha avó, que saíram da mesma aldeia há sessenta e poucos anos, não tivessem saído da aldeia?, nem há sessenta e poucos anos, nem nunca?, é claro que é impossível saber ao certo o que poderia acontecer, mas de qualquer forma penso que o exercício mental pode ser muito, muito útil para explicar, sem defender, parte do que sou hoje.

Meu avô era o segundo filho, de três homens, e sua família era pobre, como grande parte das famílias da região de Trás-os-Montes naquela época. Minha avó era a primeira de duas mulheres e um homem, e não há sequer necessidade de frisar que também eram pobres, como grande parte das famílias da região de Trás-os-Montes naquela época. Pois. Simples, comum, assim.

Meu avô parece ter saído de Castelãos por um motivo mais comum e simples do que pode parecer. Não penso que as pessoas decidem as grandes mudanças da vida por visões dantescas do futuro, por anjos que saem do nada e mostram o caminho, por insights mágicos, por flashes momentâneos de lucidez; na verdade, nós decidimos nossas vidas por pequeninos momentos, insignificantes quase, pequeninos mesmo, facilmente perdidos nas memórias do tempo, cujo acesso se torna mesmo indisponível com o passar dos instantes. Coisa de dez minutos é suficiente para esquecermos porque mudamos nossas vidas de forma definitiva.

Ele parece ter brigado com seu pai, ele parece ter se desentendido com seu pai, que parecia querer que ele fizesse coisas que não queria fazer, e isso os desentendeu, os tirou do mesmo rumo. Que pai e que filho não tiveram esses desentendimentos, que pai e que filho não tiveram esses momentos de “eu te odeio”?, que filho, apenas o filho, nunca quis desaparecer da frente do pai?, que filho, apenas o filho, nunca quis que o pai desaparecesse da sua frente?, nenhum, nenhum.

E, pronto, na altura o que estava em voga?, que terras eram boas para se fazer a vida?, bem, não é preciso pensar muito. Imaginemos a Europa, primeiro, em guerra, e depois alguns outros gigantes arrastados para o conflito então mundial, bem, imagine, estamos em guerra e podemos ser bombardeados a qualquer momento, estamos em guerra e podemos sofrer baixas, fazer sacrifícios, perder os pais, os tios, os avós até, no campo de batalha, perder contato com os outros, conosco, consigo, perder o rumo, perder o chão, uma perna, os olhos, a vida. Se sei que minha terra pode ser arrastada a um conflito a qualquer momento, bem, é até mais simples pensar que meus filhos têm mesmo que me obedecer, que me deixar dar o rumo da história, da nossa história, do que fazemos, do que somos responsáveis, do que podemos perder e ganhar, do que fazemos e pensamos. Assim tudo se torna um pouco mais fácil, tudo o que?, todas as decisões?, não!, todas as dúvidas, todas as formas, todas as fartas brigas entre casais e entre pais e filhos, filhos e pais, pais e pais, irmãos, amigos. Bem, se numa era de conflitos e exasperações nacionalistas e regionalistas, até países escolhem discordar, o que se pode dizer de famílias de camponeses?, o que se pode dizer de pobres camponeses?, cujos destinos quase nunca foram, na história, simples de se decidir?, o que se pode dizer?.

Eu não sei como enfrentar uma guerra. Eu não tenho a menor ideia de como se enfrenta uma guerra, eu nunca tive sequer a possibilidade remota de que enfrentaria alguma guerra nalgum dia, eu nunca pensei que enfrentaria uma guerra, e não a enfrento agora, nem penso que a enfrentarei um dia, algum dia qualquer, algum dia sequer. Porque talvez eu não me imagino enfrentando uma guerra de forma alguma, eu não me imagino na frente ou na traseira de um combate, eu não me imagino servindo de alvo ou de alvejador por país nenhum, eu não me vejo sendo parte de uma história de guerra, não me imagino realmente, não mesmo, eu não consigo realizar algo como uma guerra, como uma batalha campal, ou mesmo como uma batalha informatizada, como uma batalha tecnológica, como uma guerrilha de bits e bytes, não me imagino sendo conduzido a conflito de forma alguma, ainda mais conflito entre povos, ou entre países, ou entre famílias, ou entre clãs, togas, kilts, sobrenomes, apelidos, opiniões, cores, sotaques, partidos, terras, buracos, pedaços de vento, vozes, sons, palavras, ideias, ideologias, ideagramas, idiotas, pessoas com razão e pessoas sem razão, sem razão alguma, nenhuma, nenhuma mesmo, nada de razão, nada, nenhum tipo de razão.

A altivez é muito mais um recurso de defesa do que qualquer outra forma de demonstração de força interior. Ou exterior. O olhar da altivez se caracteriza mais pela miopia do que pela superioridade, e o ser altivo não poderia ser chamado de fato de um ser altivo no sentido da ação; é mais o ser que não enxerga a frente do que o ser que a enxerga e, justamente por isso, a despreza.

Os portugueses são altivos.

O parágrafo acima merece ser um parágrafo inteiro, mas não porque curto, mas porque longo. O parágrafo acima merece uma explicação longa e temente, que possa desfazer todo o engano feito no texto do forte parágrafo acima.

A altivez não se sustenta em que não tem história, conquistas e capacidade de entender o que isto tudo significa. Ela não surge do ser que não tem história; esse ser não seria nada mais do que arrogante, e altivez e arrogância não se misturam em sua essência. A altivez existe apenas em quem faz por merecê-la.

Altivez é a história estampada no olhar de quem a conhece e dela se orgulha.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O pouco

O pouco, quando é o único à disposição, precisa tornar-se o muito, senão o todo, e transformar o pouco em muito, senão em todo, é um desafio realmente interessante e, claro, difícil de ser realizado. Já o muito, senão o todo, quando vira o pouco, quando vira o insuficiente, torna tudo muito menos prazeroso, apesar de ter sido, até então, fácil de ser realizado.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Carnaval


Não consigo mais perceber lugares novos pela Internet para que possa me sentir menos mal, já encobri os espelhos da casa para que não pudesse fitar-me, e com isso perceber em que estado estou desde que comecei esta tentativa de crescer sozinho e sem manual de instruções, me perdi, simplesmente me perdi em uma esquina qualquer cuja dobra melhor seria a da direita, e por conta de alguma forte tendência a fracassar virei à esquerda, ficou por isso mesmo, a melhor opção ficou para trás, ainda poderia enxergá-la se fosse ontem, mas hoje, hoje, hoje provavelmente não, não ficou quase rastro, nem sei mais se era esquerda ou direita, se era para frente, não sei mais, não sei, não.

Aos poucos consigo levantar-me da cadeira, e chego um pouco insistente ao espelho do banheiro, descubro-o e começo a levantar terreno, entender, reconhecer, observar.

Pronto, está feio o suficiente?, o que você quer estragar mais, já sai sangue das suas unhas, já sai catarro dos seu pulmões, sua barba está na sua cara há meses, e não escova os dentes há dias já. Será que você não consegue manter a linha conectada nem por um mísero domingo de carnaval?, todo mundo longe das linhas, que merda de serviço tem a me oferecer, peço perdão se estiver errado, mas não creio estar, não creio comer o que cospe fortemente para frente toda noite, a chuva talvez atenue sua culpa, mas não a retire, você chora sempre que lhe peço algo, devaneia ao mínimo toque de bateria, droga, saiba que não lhe quero por isso, errei a tecla algumas vezes, não consigo fazer direito, consigo sim, agora foi, estive perto de chorar há meia hora, consegui não faze-lo, seria demais, seria realmente difícil suporta-lo perto, colocado em meio dia aos meus ouvidos, vou comer sushi, vou comer sushi, há na geladeira, ainda fresco, talvez diminua a sensação, que sensação?, qual sensação?, ora!, ora!, a de solidão. A de total solidão.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Uma melodia


Estou agora no quarto, as portas da casa estão trancadas, esconderam as chaves, não há como sair. Mas, mesmo que eu pudesse sair deste quarto, não conseguiria, não tenho para onde ir, não tenho com quem ir, não tenho com quem, não tenho quem, quem. Quem.

Tudo que vejo se refere a quem, a alguém, ao alguém que queira ser meu quem, mas tudo agora parece estar resumido num choro contido e fraco, lógico, interno, pois externo não posso, não me dão mais a chance, comparam-me sempre com um tolo cheio de posses imateriais, não sei quais, mas me acham-nas, me escolhem-nas, me colocam como dono dessas sortes e senhor legítimo do que acabo tendo.

Ouvi há pouco “In my life”, e é como se não tivesse para quem cantar essa canção, pequena e avassaladora, quieta num som interior, musical. É, é isso mesmo, um caos em fim de dia, não preciso nem dizer que dia é hoje, se o dia acaba imagine-os em outras contas todas, é como se amanhã fosse o um novamente, sempre pensei que o um seria o recomeço, mas se não é o primeiro começo como pode ser um?, não pode, não é, é um número disfarçado, apenas isso, tudo vai continuar cheio de outros números maiores, grandes, já velhos, impregnados de contas, de passadas de olhos e suspiros engolidos.

Quão solitários somos todos, na sexta-feira percebi com mais clareza isso, estávamos todos cheios de máscaras, muitas realmente bonitas em sua estética fria e de camada pequena, mas bonitas, o que não se pode disfarçar é quase todo o resto, quase todo, as reações às músicas mais silenciosas, cheias de intenções, embaladas em sonhos e gestos, olhares e suspiros novamente engolidos. Quase ninguém estava feliz ali, ficou visível, todos gritávamos consideravelmente alto para que eu pudesse fingir não ouvir, não dá, é um silêncio ensurdecedor, é repugnante tentar fingir não ouvir.

E eu fingi todo o tempo. Eu fingi. Eu engoli cada suspiro que tentou sair, cada tremelicada em minha pele foi ferozmente perseguida por mim, fui e fiz como todos, todos os que estavam lá, todos, gritamos em uníssono cada um com seu silêncio, choramos todos por dentro sem por fora borrar um milímetro de pele maquiada e dura.

Ele disse que deve ficar em paz, mas eles não conseguem ficar sem brigar um dia do planeta deles sequer, é como uma de suas peças, um coração humano bate noventa vezes por minuto, mas nenhuma por outra pessoa, todas são por si próprio, todas são para si próprio.

Tem muita coisa que eu consigo compreender, tem outras tantas que eu realmente me esforço e, por isso, acabo conseguindo compreender, e tem outra porção de coisas que não preciso entender, portanto considero-as como são. Mas tem algumas poucas que eu realmente não consigo entender, por mais que tente, e isso me dói.

Admitir e, calado, aceitar. São nessas horas, quando lembro-me novamente disso, que fico triste, lúcido, talvez por isso. Dou-me bem com as percepções, mas alguns fatos matam qualquer tentativa de argumento.

Tudo o que eu queria agora é uma melodia.

sábado, 19 de novembro de 2011

Ladrão


- Sabe o que eu faria agora? - pergunta o rapaz à moça ao seu lado, no ônibus.

- N...não, não sei - responde ela, meio assustada. Nunca tinha visto aquela figura antes, não sabia quem era, nem o que responder a um estranho que a abordava assim, de repente. Estava voltando para casa, tinha ido à casa de uma amiga para que fizessem um trabalho de escola. Assustada, ela faz menção de mudar de banco.

- Não, por favor, não se preocupe. Eu não estou louco. Desculpe se fui muito precipitado. Nem nos apresentamos. Meu nome é Marcos. E o seu?

- Fernanda - já mais calma, responde segura. "Até que ele não é tão feio assim", pensa. E é difícil alguém estranho chegar assim, de sopetão, direto. Acho que não vai fazer nada aqui dentro, claro. Bobo não deve ser. Bem, vamos ver o que ele quer...

- Então, como eu estava falando, acho que agora eu lhe daria um enorme beijo na boca. Hum... você quer? - disse ele, com a maior naturalidade e cara-de-pau já vista pela garota, que arregala o olho.

- Seu louco! - grita ela, mudando novamente de fisionomia - Você tá pensando que eu sou o quê? Nem se atreva que dou-lhe um tapa que a marca não vai sair nunca mais! Que palhaçada é essa, eu não sou o tipo de garota que você está pensando. Saia daqui, e já, ou vai se arrepender! - agita-se a garota, com um semblante ainda misturando raiva, surpresa e vontade.

- Hum, isso é sim, é? Acho que ouvi você dizer sim. E se eu... - o rapaz se aproxima lentamente, levando sua mão ao pescoço dela, que sem perceber diz não com a boca mas sim com o resto do corpo.

- Socorro! - grita ela, mas sem convencer ninguém - Tarado! Sai de mim - empurrando o rapaz, que cai. Ele se levanta, agarra-a com força e lhe tasca um beijo tão sensual que ela perde por alguns momentos a firmeza das pernas. Lábios colados um no outro, respiração ofegante, mão apertando a manga da camiseta, corpo inclinado para a ação que acabara de ocorrer.

Após feito o serviço, o rapaz aproveita a porta aberta do ônibus, que estava parado em um ponto onde algumas pessoas iam descer, e sai correndo rua afora, para surpresa geral dos passageiros que acompanharam a cena. A moça, atônita, com cara de quem tinha batido a cara num poste, permanece de pé no corredor do ônibus, sem saber onde está nem quem é, o que fazer, tamanha surpresa pelo acontecido. Apenas ouve-se um comentário de um office-boy para o senhor ao seu lado, perto do cobrador:

- Ó o mâno, foi lá e fez mêmo o que falô...

Uma senhora vem acudi-la:

- Você está bem? Nossa, mas que tarado! Eu vou chamar a polícia! Mas que coisa, estou a-bis-ma-da com esse... esse... "tarado"! Hoje em dia não se pode nem sair por aí sozinha que alguém já está atentando ao nosso pudor etc.

A moça, após passado o susto, sem escutar uma palavra do que a senhora dizia, pede apressadamente ao motorista para parar o ônibus, que obedece prontamente. Por mais incrível que isso possa parecer, a única coisa que ela pensava no momento era encontrar o rapaz, ela o queria para si.

Ela desce do ônibus, quase tropeçando nas escadas tamanha a pressa, e sai correndo desenfreadamente na direção que o rapaz havia seguido, pensando somente em seus lábios, em sua petulância e em sua própria surpresa. Sua cabeça girava como um cometa, as sensações de alívio e irritação transpassavam por todo seu corpo em um único instante e ao mesmo tempo, estava tudo confuso, mudado. Ele acabara de lhe roubar seu bem mais precioso até então: o resto de infância que ela ainda possuía.

Era seu primeiro beijo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Pais


Praticamente ontem eu tinha vinte e quatro anos, e desde então tenho acordado e não pensado muito nisso, bem, isso eu fazia até hoje, quando então olhei-me no espelho e vi meu rosto de quarenta e oito anos, muitos dos cabelos que sobraram já estão brancos, há rugas em minha pele, tenho os olhos cansados, um pouco murchos. Tudo me parece parte de um grande sonho kafkiano, não virei barata, mas virei um velho, e isso não é bom, e ainda há outro ponto, olhe bem, nem todas as pessoas que têm quarenta e oito anos são velhas, muitas são ainda jovens, mas eu nos meus quarenta e oito anos estou velho sim, me vejo velho, não sei na verdade o rosto que tenho, porque tudo o que vejo são com os meus olhos e com o meu cérebro, o maior filtro que há, então não conseguiria ter a visão de outro, mas a que tenho basta-me para me perceber velho, e isso realmente assusta.

Ser louco é mais fácil, estando louco não sei que o sou, portanto não sei do que padeço, e não sabendo do que padeço não preciso mudar-me. Talvez a diferença maior entre um louco e uma pessoa normal é a ansiedade de ver-se com algo de fato, a dor que sinto receber. Estar consciente nesses momentos é absolutamente incômodo, e só faz piorar os já cacos de pensamentos. Todo o passado vira saudade, todo o futuro vira escuridão, e o presente se torna um incômodo ansioso e terrível, além de solitário.

Tudo pode virar saudade quando passa para o que convenho chamar passado, desde que o que convenho chamar presente seja mal digerido.

Às vezes acho que passamos nossa vida em função de nossos pais.

Até os dez anos, achamos que eles vivem em nossa função, por nossa causa.

Dos dez aos vinte e cinco, tentamos negá-los a todo custo, queremos ser justamente o que não são; fazemos tudo para nos afastarmos, nos tornarmos diferentes deles.

Dos vinte e cinco aos quarenta, geralmente nós é que nos tornamos pais, e então percebemos o que eles sentiam e sentem em relação a nós.

Dos quarenta ao (provavelmente) resto da vida deles, tentamos mostrar o quão igual ficamos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Hipocondríaco


Teobaldo estava nervoso, nervosíssimo. Já começou acordando, aliás, acordado, pelo despertador. Era 6h30min.

- Heim, hã ? Aonde ? Pôrra, ninguém me acordou ? - pula sobressaltado, suando, nervoso. Sua mãe calmamente lhe olha e consola :

- Calma filho, ainda é cedo, não precisa ficar nervoso.

- Nervoso, eu ? Eu não estou nervoso, eu NÃO SOU nervoso... - grita, nervoso.

Começa o dia tropeçando no cachorro, coitado, a caminho do banheiro. Aquele estava para ser o pior dia de sua vida : iria retirar uma "gigante" pinta das costas, algo tão "grande" que ele precisou convencer o médico que era necessário retirá-la antes que pudesse lhe causar algo de ruim. Teobaldo era assim, digamos, prevenido. Jamais deixou que lhe chamassem de hipocondríaco, esta era uma palavra que definitivamente não lhe cabia; ele era apenas prevenido.

Engoliu o café em dois segundos e meio (talvez três), não comeu nada, não dirigiu palavra a ninguém na mesa, apenas olhando fixo para uma mosca voando em volta da fruteira. Sua mãe tentou puxar assunto, mas a única coisa que (mal) ouviu foi um "queria ser uma mosca..." vindo do fundo de Teobaldo. Já tinha se trocado enquanto todos ainda estavam de pijama. - Não quero me atrasar - foi a justificativa, sem perceber que a camiseta estava vestida do lado errado.

Foi dirigindo o carro até o hospital. Sua mãe foi escalada para o acompanhar na verdadeira tragédia humana, desgraça, que se seguiria. Teobaldo era um excelente motorista, mas naquele dia estava especialmente "afobado". Logo no terceiro cruzamento já tinha desobedecido quatro leis de trânsito, tão tenso que estava. Somente após a merecida bronca de sua mãe ele consentiu em andar de uma forma um pouco mais civilizada.

Após o imenso caminho de casa ao hospital, chegam os dois ao destino. Teobaldo já foi logo perguntando a secretária onde é a internação, precisava ser rápido, estava quatro minutos e cinqüenta segundos atrasado. Após ser acalmado, enfim concorda (ainda meio relutante) que o melhor é sentar-se e esperar ser chamado, procedimento este padrão para qualquer candidato a operado ali dentro.

Quinze minutos depois, já sem estômago (corroído pelo ácido), ouve uma voz longínqua, cavernosa, monstruosa, da simpática secretária clamando por seu nome. Pula da cadeira num susto que quase lhe custa uma válvula do coração, corre ao clichê e, atormentado, diz que é ele.

Chega então um rapaz de branco com uma ficha cujo nome Teobaldo reconhece, e pede para este lhe acompanhar. Teobaldo se despede de sua mãe com um abraço algo como "nunca mais lhe verei", lágrimas escorrendo, semblante pálido. Entram os dois, enfim, no elevador.

Teobaldo começa a imaginar então as prováveis coisa que lhe ocorrerão durante sua estadia naquele hospital, alternando-os com breves momentos de lucidez :

- E se o cirurgião errar o bisturi e enfiá-lo na minha espinha, provavelmente nunca mais andarei. Não, idiota, é besteira pensar assim. E se ele não souber fazer isso, ou ainda a pinta for muito grande ? Não, não, improvável. E se ele desmaiar ? Creio que não. E se ele...

- Senhor, é por aqui - declara pela terceira vez o enfermeiro. Teobaldo desperta de suas divagações e é levado ao quarto donde se trocará. Chegando lá, o enfermeiro pede para que ele se dispa todo, lhe entrega uma camisola verde-diarréia e pede para vesti-la. Teobaldo obedece prontamente, apenas esquecendo-se de perguntar quantos já morreram naquele quarto antes, teria gostado de saber, apenas por estatística.

Estando trocado, senta na cama e espera ser chamado. Dez minutos se passam, minutos estes que se multiplicam por doze, quinze, vinte vezes. A cada segundo pondera um provável ponto de seu corpo atingido por uma incisão enganosa.

Por fim chega uma enfermeira, anunciando-lhe a ida ao matadouro, perdão, sala de cirurgia. Ela pede que Teobaldo sente em uma maca, e este é levado aos trancos e empurrões a um lugar tão temido quanto o próprio purgatório : a tão esperada sala de cirurgia.

A cor de suas mãos se confundem com o branco do lençol que o cobre, já todo empapado de suor. A primeira coisa que pensa ouvir ao entrar na sala é o barulho de uma serra elétrica, já imaginando que tal instrumento seria de suma importância para sua operação. Ledo engano, era apenas o barulho do cirurgião preparando uma pinça.

- Bom dia doutor - sussura Teobaldo, olhando para o imenso conjunto de lâmpadas acesas por cima de sua cabeça, já imaginando quando elas cairiam em suas costas, causando enorme estrago e fazendo o bisturi ficar preso entre suas vértebras.

- Bom dia - responde o prático doutor, que pelo sotaque era de outro país.

Logo após chegam a enfermeira auxiliadora e a ajudante do cirurgião. Os três de muito bom humor, aquilo realmente não parecia uma sala de cirurgia, o ambiente condizia mais com uma "sala de cafezinho".

- Vamos lá Teoballllldo, diga-me onde é a piiinta que estás te encomodando tanto, que tiraremos eeeela como uma espiiinhazinha de nada - diz o médico com aquele sotaque estranho.

- Meu deus - pensa Teobaldo - ele nem sabe onde é a desgraça, o que que eu estou fazendo aqui com um cara que não sabe nem olhar o meu problema, será que ele é mesmo um cirurgião, ou não passa de um falso médico, daqueles que não sabem nem a diferença entre um bisturi e uma faca de cozinha...

- É aqui - aponta Teobaldo.

- Bem, bamos lá enton...

Primeiro, a imensa dor da pequena agulha de anestesia rasgando a incalculável quantidade de células dérmicas de Teobaldo. Três segundos depois, uma leve comichão, e em mais dois segundos, nada sente Teobaldo.

Ouve-se na sala, além da animada conversa entre os três profissionais, um ensurdecedor estalo de carne sendo vorazmente consumida por um ameaçador instrumento, tão brilhante quanto cortante. Cinco segundos depois, o não menos ensurdecedor barulho de linha sendo ardilosamente costurada também em carne viva.

- Pronto, meu amiiigo, já está prooonto, pode ir embora. A enfermeira bai te levar até seu quarto. Non se esqueça de passar aqui no hospital depois de amanhã para refazer o curativo. Nom molhe este curativo até lá, e cuidado, viu ?

Teobaldo, ainda meio inconsciente (não da anestesia, que fora local, mas da dormência que o pânico causa), responde um "obrigado, doutor" vindo do fundo de si.

Dez minutos depois, já cumpridas as obrigações legais do massacre, Teobaldo e sua mãe deixam o hospital, juntamente com seu cheiro de éter, repugnante, nauseante. Sua mãe ri da cara dele, tão estranha e cômica, certamente ele daria um bom personagem para uma história.

- Hipocondríaco não, prevenido sim ! - repete ele.

Chegando em casa, Teobaldo pôde enfim fazer o que tanto desejara o mês todo de angústia e depressão pré-massacre, mês este que o deixara sem dormir direito à noite, pensando em tantas possibilidades pessimistas (que dariam um belo caso para um psicólogo) : desmaiar na cama.

Claro, sua tranqüilidade durou precisamente seis horas, quando sua cabeça começou então a coçar e ele começou a pensar na enorme possibilidade de estar com alguma doença incurável nesta, que o mataria muito mais cedo do que gostaria de morrer.

Pré ocupações

Sempre há algo errado, sempre há alguém errado, e a tendência ao caos só aguça e reafirma essa percepção. Se há pouco para se preocupar, o pouco vira "tudo o que há"; se há muito para se preocupar, o pouco passa para o pouco e o muito se estabelece como o "tudo o que há"; assim que o muito acaba, o pouco volta a ser o "tudo o que há"; sempre há "tudo o que há" na minha frente.